IDALÉCIO: METALÚRGICO SEXAGENÁRIO 2018-10-11T16:42:11+00:00
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IDALÉCIO

Metalúrgico Sexagenário

Título:
IDALÉCIO
Metalúrgico Sexagenário

Data:
23 Setembro > 31 Dezembro 2017 + Uns Dias
Local:
Galeria Cruzes Canhoto, Rua Miguel Bombarda, 452, Porto
Curadoria:
Cruzes Canhoto
Textos:
Tiago Coen / Cruzes Canhoto
Fotografias:
Nuno Marques / Cruzes Canhoto



Idalécio é um artista outsider, auto-didacta, nascido em 1952, numa aldeia do interior do distrito de Aveiro.
Na casa rural onde cresceu como órfão de pai, foi criando espontaneamente sem pretensões artísticas nem interesse em revelar o acervo que foi acumulando ao longo da sua vida. Não fosse um feliz acaso, em finais de 2015, dificilmente se teria chegado ao mundo secreto deste metalúrgico sexagenário. Lá chegados, a surpresa não poderia ter sido maior, pois esperavam-nos mais de um milhar de pinturas e algumas centenas de esculturas, que só os familiares mais chegados tiveram, até então, oportunidade de apreciar.

Após a morte do tio, com quem viveu desde os três anos de idade, Idalécio, já adulto e a trabalhar no departamento de produção de uma fábrica de metalurgia, volta à casa onde passou a infância e a adolescência e converte parte das dependências em galerias surrealistas, totalmente preenchidas pelas suas invulgares criações, enquanto que a outra parte da casa é destinada a funcionar como um museu onde é preservada a memória de várias culturas populares vividas e descontinuadas ao longo de quase um século.Tudo apresentado num imenso caos organizado como se resultado de um processo entrópico, obsessiva e meticulosamente controlado pelo artista.

Perante a imensidão e a riqueza deste universo fantástico, havia que juntar esforços no sentido de o tornar acessível ao mundo dos amantes de arte, e foi isso que se tentou fazer nas semanas que se seguiram, promovendo múltiplos encontros e conversações. Nessa altura, porém, descobrimos em simultâneo o temperamento menos fácil deste homem, que para nossa surpresa foi mostrando resistência a expôr as suas peças, pelo que só ao fim de cinco meses é que pudemos ouvir o tão esperado: «‘tá bem, pode levá-las», ainda que logo de seguida não deixasse de ter lançado um «mas primeiro tem que m’as pagar!».

Em Abril de 2016, é finalmente inaugurada a exposição “D’Idalécio… Todos Temos um Pouco”, no Porto, na galeria Cruzes Canhoto, mostrando-se pela primeira vez ao público as suas esculturas e os seus quadros, com enorme sucesso, dando início a uma nova fase criativa do autor e a uma nova forma de trabalhar da galeria. Ainda assim, apesar de ter vendido umas largas centenas de peças de arte, Idalécio preferiu manter-se no anonimato e continuar na fábrica onde sempre trabalhou, criando apenas nos seus tempos livres.

A dualidade que caracteriza ainda hoje a sua vida, com dois mundos social e culturalmente bem vincados, de confronto entre uma vivência adulta materialmente burguesa e uma outra de origem rural e humilde, é resolvida através da expressão artística, sendo claramente perceptível no conjunto da sua obra.
As suas telas, apesar de marcadas por figurações exuberantes e maximalistas, são definidas por traços seguros, e por uma combinação de cores irrepreensível, qualquer que seja a paleta escolhida, numa construção harmoniosa e elegante. Por outro lado, as esculturas, sobretudo as mais recentes, são quase todas monocromáticas e construídas com pedaços toscos de madeira, usando como ferramenta quase em exclusivo um machado, o que lhes confere um aspecto bruto, primitivo e minimal.

Como todos os colectores compulsivos, guarda em caixas enormes centenas de objectos inúteis de todo o tipo que aproveita para aplicar nas esculturas que constrói. O mesmo espírito de não-desperdício é usado nas pinturas, quando no final de cada sessão utiliza o resto das tintas de óleo ou de acrílico para experimentar combinações de formas ou de cores nas folhas de jornal que usa para proteger o espaço de trabalho.

Artista pop e populista, surreal e tropicalista, Idalécio inspira-se fortemente na arte popular portuguesa, de que é apreciável conhecedor, sendo um habitual frequentador das festas, romarias e feiras de artesanato que se realizam por todo o país. Ali, recupera alguns dos elementos e motivos do imaginário rural, em que o sagrado e o profano seguem quase sempre a par, para desferir duras e sarcásticas críticas aos poderes instituídos, em especial aos herdados da cultura judaico-cristã.
De forma inusitada, conjuga a linguagem dos mestres artesãos portugueses com algumas das expressões da arte tribal africana, de que é igualmente coleccionador, particularmente das chamadas ‘power figures’, a que não será alheio o facto de ter cumprido o serviço militar no interior de Moçambique no início dos anos 70.

Se no início da sua actividade criativa são evidentes algumas incoerências estilísticas – picando aqui e ali de tudo com que se cruzava na sua inocente curiosidade natural –, na produção mais recente é perceptível uma maior coesão de estilos, formas e temas, resultado de um processo evolutivo bem sucedido na direcção de uma linguagem própria absolutamente singular.

Todas as obras expostas no espaço da Cruzes Canhoto estão agora disponíveis para aquisição online.
Para o fazer, entre em contacto directo com a galeria.

PINTURAS

ESCULTURAS

LIVRO

A propósito desta exposição, a Cruzes Canhoto lança o livro “Idalécio – Metalúrgico Sexagenário”,
onde se apresenta de uma forma mais aprofundada o universo deste artista singular.
48 páginas profusamente ilustradas a cores, com capa em tela, com a dimensão de 20x20cm.

Edição:
Cruzes Canhoto
Coordenação Editorial:
Tiago Coen / Cruzes Canhoto
Textos:
Tiago Coen / Cruzes Canhoto
Fotografia e Edição de Imagens:
Nuno Marques / Cruzes Canhoto
Desenho Gráfico:
Pedro Soares / Cruzes Canhoto
Impressão:
Orgal
Agradecimentos:
Idalécio Carvalho

Edição de 300 exemplares